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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Sonho, o Tesouro e a Ponte

Assim diz uma história contada dentro da doutrina hassídica (que constitui uma divisão no interior da religião judaica ortodoxa):

“Eisik, filho de Jekel, recebeu num sonho a ordem de procurar um tesouro exatamente em baixo da ponte que em Praga leva pra o Castelo Real. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik finalmente decidiu peregrinar até Praga.



Contudo, Eisik logo pôde notar que havia guardas que vigiavam a ponte dia e noite, o que lhe minava a coragem para ir até lá e começar a cavar. Mesmo assim, a cada manhã que se seguia, ele comparecia à ponte, rodeando-a até a noite.

Finalmente, o comandante da guarda, percebendo aquele estranho comportamento, perguntou gentilmente se ele procurava alguma coisa ou esperava por alguém.

Eisik então contou sobre o seu sonho que o trouxera de tão longe, para os risos do comandante que apenas lhe replicou:

‘E aí, você, pobrezinho, com seus sapatos estragados, peregrinou até aqui só por causa de um sonho?  Pois bem, quem manda confiar em sonhos! Eu também teria que ter feito uma viagem dessa quando um sonho me mandou ir para Krakau, cavar um tesouro em baixo do fogão na casa de um judeu com nome Eisik, filho de Jekel. Eisik, filho de Jekel! Posso imaginar, cavando lá, onde uma metade dos judeus se chama Eisik e a outra Jekel, em todas as casas!’

E ele continuava rindo. Eisik, por sua vez, apenas o cumprimentou, retornou à sua casa, escavou o tesouro e construiu uma casa de oração que batizou de Reb Eisik Reb Jekels Schul.”


Nesse conto, podemos destacar duas mensagens importantes: A primeira, é que, como já diz o colóquio, o “Homem é do tamanho de seus Sonhos”. Eisik, com fé, esforço e dedicação, acreditou em seu sonho, no tesouro que confiara existir em um local tão distante.

Mas, uma breve análise poderia nos fazer questionar ‘Ora, ao final das contas, o tesouro de Eisik não estava naquela ponte em Praga, mas sim em sua própria casa!”.

Com certeza! Porém, será que também não havia um tesouro em Praga, destinado ao Capitão da Guarda?

Muitas vezes valorizamos excessivamente os resultados esperados. O sonho tem de realizar-se da exata forma com que imaginamos.

Aos primeiros sinais de dificuldade em nossa peregrinação, todavia, pensamos em desistir, concluindo que a vida não é como os sonhos, que nada que vemos dormindo pode se encarnar quando estamos acordados.

Esquecemo-nos, porém, da importância do caminho, e de como ele nos transforma, dando-nos saberia e informações que nos fazem, ainda que de forma diferente do “sonho perfeito”, atingir os mesmos resultados e, por que não dizer, até mesmo melhores que os resultados sonhados.

Como Eisik conseguiria o tesouro que encontrara em sua casa, não fosse por toda sua peregrinação até a distante Praga? Ora, o conto é claro ao nos mostrar que o caminho sempre é necessário, a luta, o esforço direcionado, pois, em verdade, foi apenas por desejar conseguir seu tesouro seguindo o caminho de seus sonhos foi que Eisik conseguiu a pista, a peça final para a conclusão de sua longa jornada, recompensando sua dedicação, crença e esforço com o tesouro prometido em suas visões guiadas pelas areias do sono.

E você? Está percorrendo o caminho em busca de seu tesouro? Ou não acredita em sonhos, pensando que seu lugar é eternamente parado em um posto de guarda em uma ponte qualquer da vida?

U.

Originalmente publicado em: http://www.fabriqueideias.com.br/2012/01/o-sonho-o-tesouro-e-ponte.html

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Trololó


Trololó

Sou moderno na derme
De demente mente mentirosa
Rosa de um jardim chinfrim
Que esconde onde está

Chá ralo. Galo sem Sol
Atol no meio d’um veio d’água
De mágoa. À procura da cura
Que traz a paz de lá.

De cá, caído. Vendido na vida
Voando na via do céu,
Ao léu. Apóstata que aposta
No indulto do inculto que nina

                                                                                                                     Uma pantomima de rima.

Bruner de Morais Miranda
Uberlândia/MG – 18/09/2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Reflexos


Quem é que vence, quando a luta é consigo?
Quem é que escapa, quando a fuga é de si?
Ainda que pense, porque corre trôpego
e busca a solapa, com o peito a explodir?

E, por uma brevidade
O medo dado à curiosidade
Com o globo fita no encalço
O monstro de seus próprios passos

Bruner Morais
Uberlândia/MG, 23 de janeiro de 2011.

E.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Deus ou Não Deus? Essa é realmente a questão?


Vivemos em uma época curiosa.

Mais do que nunca, o mundo parece retornar às suas origens tribais de isolamento e separação ao mesmo tempo em que é difundida uma mensagem de integração e acolhimento das diferenças.

"Eu sou eu e não consigo entender os outros. Por isso, eles são coisas que devo destruir e matar."

Por mais que pessoas homoafetivas, de raças minoritárias, com limitações mentais ou físicas tenham cada vez mais a proteção legal e doutrinária de que tais diferenças não excluem jamais sua condição humana, da mesma forma, mais intensa é a discriminação oriunda de fontes diversas.

Isso não acontece apenas em casos relacionados à escolha sexual ou à aparência de outro ser humano.

Ultimamente, venho sido abordado por vídeos, livros e e-mails relacionados visando me "converter". Porém, ao contrário do que eu mesmo esperava, tais tentativas de conversão não são oriundas de igrejas, templos, mosteiros ou qualquer entidade religiosa. Pelo contrário, hoje, em pleno século XXI, que se utiliza da estratégia tão comum aos grupos religiosos são os ateus.

Sua tentativa de conversão, contudo, me assusta e ofende. Acredito em um Deus, à minha maneira, mas sei muito bem que posso estar enganado e tudo pode não ser sequer uma egrégora, mas apenas um sonho coletivo sem significado ou real presença. Respeito e procuro compreender a linha de pensamento dos ateus, como também de todas as demais pessoas, independente de concordar com as mesmas ou não.

Porém, me deixa estarrecido o material de conversão que recebo atualmente, com palavras fortes e muitas vezes de baixo calão, fazendo escárnio dos textos e das pessoas que os entendem sagrados. A sensação que me acomete é de que presencio uma violência semelhante à que gerou a Cruzadas entre cristãos e sarracenos, ou que gerou o holocausto, ressalvadas as devidas proporções.

Pessoalmente odeio vídeos e quaisquer outras propostas de conversão, seja de religiosos ou ateus, simplesmente porque ambos demonstram completa ignorância sobre a linha de pensamento daqueles que desejam converter.

Se você olha para uma fórmula matemática ou para um texto estrangeiro sem conhecer seus símbolos, significados e contextos, você é incapaz de compreender o que a fórmula matemática traduz ou o que o texto significa. O mesmo acontece quando alguém lê um texto em sua língua sem compreender os símbolos e arquétipos sobre os quais ele se fundamenta.

Daí ocorre o que é comum à raça humana quando não compreende algo: ela procura rejeitá-lo e a odiá-lo.

Muitas perguntas feitas por ateus podem ser respondidas facilmente por um "religioso" verdadeiramente racional, que sabe entender o que são textos símbolicos, os que inclusivem são fatos (como o dilúvio judaico-cristão, que inclusive aparece no texto sagrado e poema épico dos sumérios de Gilgamesh e que cada vez mais parece ser confirmado - não como um dilúvio mundial, mas um absurdo tsunami naquela região, derivado de um deslizamento de um ilha vulcânica -), e o que realmente é algo decorrente de um contexto, mais semelhante a um lei de direito cabível para a organização de uma sociedade em determinada época e local, que era simplesmente lastreada na "pessoa" de um Deus, para fundamentar seu poder temporal e vinculá-lo a uma espécie de poder espiritual.

Ser um religioso (cristão, judeu, mulçumano, budista, xiita, neo-pagão, etc), um ateu ou agnóstico "inteligente" ou "racional" não é ser tolo e acreditar em bobagens, mas sim procurar a essência das sabedorias das tradições do mundo e manter a mente aberta para as possibilidades e impossibilidades. Afinal, que ignorante de outrora acreditaria que a Terra era redonda, ou que poderiam existir mais do que quatro dimensões? O ódio e o escárnio, juntamente com o preconceito e falta de respeito, tornam as pessoas cegas, como a história já comprovou.

Ademais, como o próprio Shakespeare um dia disse pela voz de Hamlet para seu amigo Horácio: "There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy." (Hamlet, I.5)

Vivemos em um mistério, mas nossas opiniões sobre ele jamais devem ser motivo suficiente para que não possamos todos viver em paz, como espécie e como irmãos de caminhada por esta estrada desconhecida e sem muita luz.

R.

terça-feira, 15 de março de 2011

Sem Fronteiras


Afinal, que pássaro,
tenho sentido o céu,
seria feliz vivendo
em uma aconchegante gaiola?

E.

domingo, 7 de novembro de 2010

Nascimento


O sangue das canetas espalhado no papel é como o Pégaso que nasce do corpo decapitado da Medusa.

É como costela subtraída do peito para moldar a Mulher; como escroto do titã de onde irrompe a deusa do amor.

É música que nasce de latas de lixo, panelas enferrujadas e pedaços de pau.

É o feio, o estranho, o temido. O esterco onde germina a flor.

O sangue das canetas manchando o papel é extinção do mortal no poeta, para que o divino da arte possa nascer.

E.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Míngua de Víveres

A fundamental condição humana é a insatisfação.

Não é? Tem de ser! Do contrário, porque é que constantemente sinto esse vazio que, contraditoriamente, preenche de maneira absurda cada partícula de meu ser?

Meu único consolo seria saber que essa insatisfação, essa insidiosa sensação de que falta algo para ser preenchido e fazer com que meu corpo, minha mente e meu espírito se tornem um, fosse tão somente uma faceta constante e permanente, incrustrada no código genético e emocional do ser humano.

Mas como? Por que haveria essa expressão influente do nada sobrepujar tudo aquilo que procuro para me preencher e então penetrar, em seu infinito vácuo de sentimentos, cada veia, artéria, órgão, imagem, pensamento e palavra?

Seria essa pequena criatura pensante, que não obstante perseguir e vivenciar inúmeras e diversas experiências, sempre visando sorver cada gota do cálice da vida, apenas um demônio da gula? Que, mesmo tendo em si tudo o que precisa para se considerar satisfeita, continuar a querer consumir mais e mais, sem nunca saber a hora de parar?

Não... A Gula, tão bem posicionada dentre os tradicionais pecados mortais, não poderia ser alojada perfeitamente à esta condição. Pois a Gula pressupõe a ausência de necessidade, a inexistência de falta. Não... Enquanto escrevo, tudo se torna claro...

O que sinto é Fome.

Essa avidez, o desejo insaciável de ingerir, eucaristicamente, qualquer coisa capaz de saciar e expulsar do peito o vazio que, imaterial, ocupa espaço. Esta é a origem dessa sofreguidão, mal estar, fraqueza.

Esse apetite aniquilador é o que faz com que todas as experiências, conhecimentos e aprendizados adquiridos sejam tragados vorazmente, consumidos por esta digestão mental visando extrair os sumos e nutrientes da alma, de forma tão fugaz que a satisfação por eles fornecida se torna apenas brisa morna em meio à tempestade, esvaindo-se como se jamais houvesse estado lá.

E é então que ela retorna, rastejante, impregnando com seu hálito gelado a boca do estômago, e apertando com as extremidades recurvas e pontiagudas de suas garras, o coração.

Mais uma vez o parasita se aloja, e tudo o que resta ao seu hospedeiro é procurar outra coisa para comer...

E.